Ronaldo Castro
Cão sem Plumas
João Cabral de Melo Neto
"Ao entrar no Recife,/ não
pensem que entro só. Entra comigo a gente que
comigo baixou por essa velha estrada que vem do
interior; entram comigo rios a quem o mar
chamou, entra comigo a gente que com o mar
sonhou, e também retirantes em quem só o suor
não secou; e entra essa gente triste, a mais triste
que já baixou, a gente que a usina, depois de
mastigar, largou". |
O rio Capibaribe é a um só tempo o orgulho e a vergonha de nossa cidade. O poeta João Cabral de Melo Neto, em seu magnífico poema "Cão sem Plumas", nos lembrará para sempre essa vergonha. E não podemos esquecer que essa vergonha é o produto maior do caríssimo "desenvolvimento e progresso". Acolhemos o progresso dando adeus às capivaras, aos peixe-bois, aos meros e tantos outros. Mas não pretendo ser um saudosista cujo romantismo tem tanta força quanto as capivaras para salvar o rio. O que pode salvar-nos, não só o nosso rio capibaribe, mas também toda a paisagem humana é o corajoso exercício da cidadania.
Cidadania é a qualidade ou a condição do cidadão. Infelizmente essa como tantas outras palavras estão impregnadas de um discurso político vazio, vendida por uma retórica de feirantes. Mas a realidade que expressam se nega a esse mercado negro. O exercício da cidadania está se afirmando muito lentamente em relação ao mal que avança e por isso é preciso escrever, falar, lutar e lutar principalmente contra o pessimismo generalizado que nega toda a esperança de dias melhores.
Há muitos grupos, hoje mais conhecidos como ONG´s, que lutam pela melhoria das condições de vida, mas esses órgãos nascem da legítima indignação humana perante a usurpação dos poderes. Originalmente não têm pretensões políticas ou ideológicas, apenas procuram, ou deveriam, organizar eficientemente uma ação.
Conheci um desses grupos, espero que embrião de uma ONG, localizado justamente às margens do rio Capibaribe. Falo do casal André e Socorro do bar Capibar, que há cerca de dez anos faz de seu pequeno bar uma grande praça para a comunidade. Bandas musicais ali lançam seus CD´s, escolas ali ampliam seus conhecimentos sobre o rio, jovens da comunidade ganham seus trocados servindo os clientes, e várias ONG´s já se reuniram às margens do Capibaribe nas mesas do Capibar. Hoje esse casal luta por um grandioso projeto que por ter o tamanho do coração sofre de taquicardia política. Nem o poder político , nem as ONG´s ambientalistas, e, pasmem, nem a própria comunidade viabiliza o projeto. Trata-se do projeto RECAPIBARIBE que pretende, num primeiro momento conscientizar a comunidade em geral para a importância da vida do rio, a pesca, o transporte, o turismo, etc, e num segundo momento, pressionar os poderes, justamente pelo peso da consciência popular, a desenvolver mecanismos reais de recuperação das condições de vida ao longo do rio, cuja repercussão afeta toda a cidade do Recife e não apenas as comunidade ribeirinhas. O problema é que há inúmeros grupos ambientalistas, cada um cuidando de um problema específico e que para tanto abocanha os recursos necessários, inviabilizando os demais. Sem esquecer também que isso não se faz sem uma guerra interna entre os grupos e as comunidades, como famintos em busca de migalhas. Isso faz com que as comunidades, ao invés de se fortalecerem na defesa do bem comum, enfraqueçam justamente pelos meios que usam para tentar conseguí-lo. Um outro fator enfrentado pelo embrionário projeto RECAPIBARIBE, e a boa vontade quase quixotesca do casal André e Socorro, é a mais que antiga inveja humana. Numa matéria lançada pelo jornal Folha de Pernambuco uma senhora integrante daquela comunidade reclamava histericamente das ações que o casal vem tomando ao longo do rio. Pescadores da comunidade foram convidados a participar de uma coleta de lixo no rio, em troca de uma cesta básica que o casal quase que tira do próprio bolso, pois que a consciência é coisa pouca pra encher a barriga.
O lixo é uma espécie de bandeira do movimento. A idéia é amontoá-lo próximo ao bar para que as autoridades possam se sensibilizar e resolvam tirar do papel os grandiosos projetos capitais. Porcos, cavalos, cachorros, galinhas, sacos plásticos, móveis, pneus se amontoam para a vergonha de todos e ao invés dessa senhora usar toda sua força para reivindicar a retirada desse lixo de suas margens parece querer que o próprio casal seja retirado. O casal deve lhe parecer mais intragável, com suas ações de jovens apaixonados, que o próprio lixo que apodrece em suas margens.
Não nos parece inveja da juventude, da paixão, do nível de consciência que o casal representa? Os cavalos, os porcos, os plásticos, o lixo não foi criado pelo projeto RECAPIBARIBE, foi tão somente amontoádo alí de forma a servir de um monumento à vergonha, de forma a servir de isca para uma ação mais rápida e eficiente por parte das autoridades. Será que a própria comunidade deseja que as coisas fiquem como estão. Essa senhora parece querer dizer que devemos deixar o lixo disperso, devemos deixar nossos problemas dispersos, de forma a torná-lo menos visível, menos crítico. Felizmente ela não representa aquela comunidade. Mas de alguma forma ela representa a todos nós. Assim o RECAPIBARIBE também significa um RE-UNIR, RE-CUPERAR a dignidade humana.