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Prefácio a Escolha e sobrevivência, de Ângelo Monteiro
Olavo de Carvalho
8 de março de 2004
“Para compreender uma civilização -- dizia Titus Burckhardt -- é preciso amá-la, e isto só é possível graças aos valores permanentes, de validade universal, que ela implique.” [1] Walter F. Otto observou coisa similar. [2] Na mesma linha raciocinava Benedetto Croce, ao afirmar que o passado só é compreensível graças à estrutura microcósmica da alma do historiador, que contém em germe os princípios e valores realizados pelas civilizações que estuda. [3]
Que acontece, então, quando o estudioso não se debruça sobre outras civilizações, mas sobre a sua própria? Neste caso ele deve conscientizar o universal “sentido da vida” (na acepção de Victor Frankl) que se realiza na sua própria pessoa enquanto produto expressivo do meio civilizacional, ao mesmo tempo que discerne nesse meio os circuitos e processos que trouxeram o produto à existência. Nessa situação, portanto, a associação de autoconsciência e compreensão histórico-cultural é ainda mais estreita, já que o observador é ao mesmo tempo a amostra viva dos valores considerados e a testemunha da sua encarnação histórica no cenário maior da civilização a que pertence. De maneira simetricamente complementar, os valores universais apreendidos de outras épocas e civilizações por meio do estudo devem se tornar para ele pontos de comparação com aqueles adquiridos da experiência da vida, e para isto é preciso que os primeiros estejam bem arraigados nele ao ponto de constituírem elementos da sua constelação espiritual pessoal.
Um exemplo bem claro dessa complementação dialética é o livro de Hermann von Keyserling, Análise Espectral da Europa , no qual o filósofo, traçando o perfil anímico dos vários povos europeus, reencontra neles, com formas e proporções diversas, ora equivalentes, ora contrastantes, os mesmos elementos componentes de valor universal que a experiência vivida cultivou na sua alma de alemão, ao mesmo tempo que elucida essa experiência através dos símbolos que, nas culturas em torno, condensam a experiência vital alheia.
Se a sinceridade da confissão individual e a confiabilidade objetiva da ciência mostram aí a sua raiz comum, é porque, no fundo, a segunda se reduz à primeira, a veracidade do testemunho pessoal do ato de conhecimento sendo, na prática e até metafisicamente, a condição primeira da possibilidade mesma de todo conhecimento objetivo. Jung estava muito errado ao dizer que “o problema” da psicologia é a coincidência, nela, do conhecedor e do objeto de conhecimento. Isso não é um problema, é uma solução. Se não houvesse essa coincidência, nenhum conhecimento válido seria possível: o mundo externo seria uma coleção anárquica de formas sem sentido, o interno um abismo eternamente mudo de estados subjetivos inapreensíveis.
Não há por isso, talvez, experiência cognitiva mais frutífera, nem mais exigente, que a do estudioso que se interroga sobre a sua própria cultura e civilização, não na condição ingênua da pura testemunha memorialista que pode narrar ou descrever sem preocupar-se com o sentido último daquilo que diz ou escreve; nem desde o ponto de vista convencional e estereotipado das “ciências” nominalmente existentes, isto é, não como sociólogo, antropólogo ou cientista político, que pode operar desde categorias consensualmente admitidas pelo seu círculo profissional sem assumir a responsabilidade pessoal pela justificação delas, e sim na condição radical de fi lósofo, isto é, do homem que responde ao mesmo tempo pela confiabilidade pessoal do testemunho, pela validade universal do sentido aí apreendido e, last not least , pela confiabilidade científica -- entre aspas ou não -- do nexo entre uma coisa e a outra.
É essa experiência que o poeta e filósofo pernambucano Ângelo Monteiro nos oferece em todos os ensaios deste livro, mas em especial nas páginas memoráveis do “Tratado da Lavação da Burra”, talvez a mais dramática tentativa que alguém já fez para oferecer à pergunta “Que é ser brasileiro?” uma resposta ontologicamente significativa. O termo “ontologicamente” deve ser explicado.
Se o “ser brasileiro” fosse elucidado como forma cultural, social, psíquica ou histórica em comparação com outras formas conhecidas, estas teriam de ser dadas por pressupostas e não poderiam ser problematizadas durante a investigação. Neste caso, a resposta obtida seria apenas a aplicação, a um caso particular, de categorias consensualmente admitidas no uso acadêmico, categorias desenvolvidas, é claro, no estudo de outros povos, culturas e civilizações. Acontece que, como vimos, esse estudo só adquire sentido se o estudioso é capaz de lançar sobre o objeto uma luz proveniente da sua própria alma. E, no caso, é essa mesma alma que está em questão, já que o estudioso é, ele próprio, a amostra e testemunho do “ser brasileiro” que se pretende elucidar, ao mesmo tempo que as categorias usadas para a compreensão desse objeto não podem ser recebidas prontas de nenhuma “disciplina” convencionalmente admitida, mas devem ser desenvolvidas e justificadas no curso da própria investigação, mediante a incursão no problema mesmo da estrutura geral do existir humano.
Por isso o “Tratado da Lavação da Burra”, por trás de sua aparência apenas literária e satírica, é uma investigação genuinamente filosófica, que coloca o seu autor num patamar bem mais elevado que o dos “estudos brasileiros” usuais.
Um segundo ponto a considerar é que, precisamente, a pergunta colocada não encontra resposta positiva. O “ser brasileiro” não expressa nenhum valor universal reconhecível, exceto o da sua indefinição mesma, a qual, é verdade, pode ser admitida ad hoc como um símbolo universal do homem radicalmente desaculturado, perdido na indefinição geral das formas. Isso quer dizer que, em última análise, o brasileiro enquanto tal, embora participe materialmente do acontecer universal, está excluído da autobiografia espiritual da espécie humana. Se perguntarmos a qualquer cidadão, nas ruas, o que é ser brasileiro, ele apelará aos estereótipos mais imediatos da mídia e da moda, sem a mínima ligação com o passado histórico local ou universal que, radicalmente, não lhe interessa; e, assim fazendo, afirmará implicitamente que ser brasileiro não é nada, é ser qualquer coisa escolhida a esmo num leque de ofertas desesperadoramente passageiras, contingentes e, pensando bem, sem sentido nenhum exceto o utilitário e lúdico do momento. Quaisquer outros motivos são dados por inexistentes ou atribuídos a idiossincrasias pessoais incompreensíveis. Utilitário e lúdico, a necessidade e o prazer, são os dois fundamentos únicos da conduta no Brasil. Tudo o que se faça é por necessidade imposta ou por diversão. A analogia com os átomos de Epicuro é inescapável. O filósofo brasileiro que se interroga sobre o sentido da sua condição nacional de existência é um átomo de Epicuro que não encontra outra resposta em torno exceto a necessidade e o prazer. Mas a necessidade e o prazer não são valores, não são um “sentido da vida”. São fatos consumados. A investigação tenta se elevar ao sentido da vida e é jogada de volta ao seu ponto de partida, a imediatez empírica do fato consumado.
Tal é a estrutura profunda do modo de ser brasileiro. Ela pode ter sido camuflada, em certos meios e momentos, por valores importados mediante os quais alguns indivíduos ou grupos adquiriam provisoriamente algo como um sentido da vida. Houve cristãos, positivistas, maçons, comunistas, americanófilos, anglófilos, francófilos, germanófilos, europeizantes, indigenistas, africanistas -- cada um vivendo para o significado escolhido, mas, justamente nessa medida, não podendo fazê-lo como brasileiro e sim como indivíduo isolado ou membro de um grupo em particular. Quando, na devastação cultural da última década, até mesmo essas formas culturais parciais e temporárias se dissolveram, a verdadeira condição do ser brasileiro tornou-se evidente. A verdade profunda do “Tratado da Lavação da Burra” nunca foi tão visível. Não é talvez coincidência que esta obra notável, por tanto tempo guardada na gaveta, venha só agora ao conhecimento do público. Em outras épocas, sua verdade temível podia ser tergiversada, descontada como exagero de satirista, atenuada por uma multidão de subterfúgios. Hoje, não há como escapar dela.
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NOTAS
[1] Titus Burckhardt, La Civilizacíon Hispano-Árabe, Madrid, Alianza Editorial, 1977, p. 9.
[2] Cit. em Karl Kerényi, La Religión Antigua , trad. espanhola, Madrid, Revista de Occidente.
[3] “O que se chama, no uso historiográfico, documentos escritos, esculpidos, figurados ou aprisionados nos fonógrafos ou também existentes como objetos naturais, esqueletos ou fósseis, não age como tal, e tal não é, salvo enquanto estimula e acentua em mim recordações de estados de ânimo que estão em mim... Se não existe em mim, adormecido que seja, o sentimento da caridade cristã ou da salvação pela fé ou da honra cavaleiresca ou do radicalismo jacobino ou da reverência pela velha tradição, inutilmente passarão sob meus olhos as páginas dos Evangelhos e das epístolas paulinas, da epopéia carolíngia, dos discursos que se faziam na Convenção Nacional, das líricas, dos dramas e romances que exprimiram a nostalgia oitocentista pela Idade Média. O homem é um microcosmo, não no sentido naturalístico, mas no sentido histórico: é um compêndio da história universal.” (Benedetto Croce, A História: Pensamento e Ação , trad. Darcy Damasceno, Rio, Zahar, 1962, p. 15.)
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