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O Porquê de Escolha e Sobrevivência
Ângelo Monteiro A edição deste livro se deve a uma dupla ação de objetividade: a do filósofo Olavo de Carvalho que, em sua generosidade intelectual, desceu os olhos sobre um autor praticamente desconhecido, e estendeu seu paciente desvelo até à corrigenda monótona de algumas partículas excessivas no texto, e a do editor Edson Manuel de Oliveira Filho, que após imaginar a teatralização da primeira parte deste livro, teve, ainda, a coragem de editá-lo. Falei primeiro de objetividade, porque no atual momento histórico brasileiro é uma palavra que perdeu há muito a sua serventia, na quase total dificuldade das coisas serem objetos para algum sujeito, já que todas passaram a ter o mesmíssimo valor e a consciência valorativa foi sendo substituída paulatinamente pelo trotoir histérico das celebridades da hora e poucos, entre nós, hoje sentem ou pensam por si mesmos. Falei depois em generosidade: porque ela pressupõe, antes que tudo, o desapego das amarras do eu para a captação do outro em seu próprio universo e, também, o reconhecimento como doação de sentido. Em terceiro lugar, falei em coragem: essa virtude raríssima, principalmente no meio intelectual, pautado com freqüência pelo unanimismo do discurso vigente e pela estranheza abissal por tudo aquilo que não for o ramerrão de costume. O título deste livro seria outro não fosse o fato de numa conferência de Olavo de Carvalho, na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, a 13 de maio de 1998, ter me soado qual música nos ouvidos esta sentença exemplar que lhe serve de epígrafe: “Sobreviver é escolher, escolher é renunciar”. Assim nasceu o título: Escolha e Sobrevivência. Como lutador incansável de todas as causas tidas por perdidas, segundo o velho comentário do meu pai, decidi-me ferozmente por uma única escolha: seguir o meu próprio caminho, de acordo, ao mesmo tempo, com as palavras da Bíblia: “Meus caminhos não são os vossos caminhos”, e com a lição do Patinho Feio, de Hans Christian Andersen, mas tendo, por conta disso, que arrostar com as exigências de uma ascética prisão domiciliar, sem a qual seria impossível minha própria sobrevivência em meio à grita de tantos palradores infiéis e sem sossego. Hoje agradeço aos meus palradores infiéis e sem sossego, pois evitaram com sua grita em meus ouvidos, quase às raias da surdez, que eu fosse mais um deles. Acredito que a verdadeira comunhão é uma partilha de dons e não um mergulho insensato em qualquer forma de coletivismo e, muito menos, na coletivização das consciências numa única direção, a direção ideológica: o novo prato de lentilhas em troca do direito à primogenitura adâmica de todos nós. Não sendo um filósofo, mas um pensador em poeta, na acepção de Fernando Pessoa, regozija-me a capacidade de ver o mundo de maneira diferente e de edificar essa visão poética do mundo no seio de uma longa tradição. Pois não sendo propriamente um filósofo, não me abandonam os sentimentos da filosofia, para fazer uso das palavras do mestre Evaldo Coutinho, em um dos textos introdutórios a este livro. Um livro que, na realidade se constitui de três partes: a primeira se centra numa crítica da cultura brasileira, em tal estado de barbárie que qualquer busca de transcendência se resolve na não transcendência de coisa nenhuma; a segunda, em um conjunto de ensaios sobre alguns nomes e valores mais significativos da cultura ocidental no passado como no presente, tanto no Brasil quanto no exterior, e a terceira representando uma tentativa de salvação estética de tudo quanto foi relegado para os porões de uma História que já não conseguimos acompanhar como dantes, na ausência de uma paidéia que reconstitua valores sem os quais o homem não encontrará nenhuma sobrevivência espiritual, por lhe faltar justamente a escolha do que é mais necessário, segundo a sentença de Jesus de Nazaré: “Buscai primeiro que tudo o reino de Deus e a sua glória e as demais coisas vos virão por acréscimo.” A proscrição deste Reino nas nossas vidas não é algo, afinal de contas, que encontre fáceis sucedâneos; e a verdadeira função, tanto da arte quanto da filosofia, é a de nos religar ao centro deste Reino que foi erradicado do coração humano como um tumor indesejável. Duas divisas sempre acompanharam minha existência, quer como indivíduo, quer como autor. A primeira é de Nietzsche, no Assim falava Zaratustra: “O que não me mata, me torna mais forte”. E a segunda é de Santo Inácio de Loyola, em seus Exercícios Espirituais: “Não é o muito saber que farta e satisfaz, mas sentir e gostar das coisas internamente”. O encontro destas duas divisas expressa, de uma certa maneira, no meu caso particular, a dialética inelutável entre as exigências dramáticas da vida e a busca amorosa do conhecimento. São Paulo, 17 de maio de 2004 |